Calçados e produtos de couro
O Estado de São Paulo mantém, nas Regiões de Franca e Araçatuba, um dos maiores pólos calçadistas de todo o mundo.
Estatísticas (2003 e 2003)
- Número de empresas: 1.936 (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Pesquisa Industrial Anual - PIA 2002)
- Pessoal empregado: 101.246 (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Pesquisa Industrial Anual - PIA 2002)
- Receita Líquida de vendas: R$ 5,4 bilhões (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Pesquisa Industrial Anual - PIA 2002)
- Valor da Transformação Industrial: R$ 1,9 bilhões (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Pesquisa Industrial Anual - PIA 2002)
- Exportações: US$ 488 milhões (Fonte: Secretaria de Comércio Exterior - Secex 2003)
Principais Regiões Produtoras
- Franca
- Araçatuba
- Região Metropolitana de São Paulo
A preparação de couros e a fabricação de artefatos de couro, artigos de viagem e calçados podem ser entendidas como um complexo industrial, que tem num de seus extremos a produção de couro cru, subordinada à de carne bovina, sendo a indústria calçadista a principal demandante de couros.
O processo de produção do couro tem início na atividade pecuária, seguida pelo abate dos animais, o descarne nos abatedouros e a aplicação de conservantes. Neste estágio a pele é tratada pelo frigorífico ou vendida para os curtumes, onde é submetida a diversos processos.
Segundo o estudo Panorama do Setor de Couros no Brasil, do BNDES, os curtumes são classificados de acordo com a etapa que desenvolvem no processamento do couro: curtume de wet blue - abrange o primeiro processamento do couro, em que são removidas as impurezas e é realizado o primeiro banho de cromo, dando ao couro um tom azulado e molhado; curtume integrado - realiza todas as fases da produção de couro; curtume de semi-acabado - transforma o couro wet blue em couro crust (semi-acabado); e curtume de acabamento - transforma o couro crust em couro acabado.
Esses diversos tipos de curtume podem estar integrados aos frigoríficos ou à indústria de calçados ou podem ser independentes.
É possível subdividir o processo de produção da indústria de calçados em modelagem, corte, costura, montagem e acabamento. Essas etapas podem ocorrer em estabelecimentos e locais diferentes. Essa indústria caracteriza-se por ser intensiva em mão-de-obra e por empregar tecnologias que guardam ainda algumas marcas artesanais.
De acordo com o Diagnóstico da Cadeia Produtiva de Couro e Calçados, do Ministério do Desenvolvimento (2001), uma particularidade da indústria calçadista consiste em sua aglomeração em uma região. No caso brasileiro, concentra-se na região do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, e nas cidades de Franca, Jaú e Birigui, no Estado de São Paulo; no exterior, em Benta e Marche, na Itália; em Guadalajara e Leon, no México; em Pusan, na Coréia do Sul etc.
Na década de 1990, a abertura comercial - caracterizada pela queda de barreiras tarifárias e não-tarifárias e pela política de estabilização - implicou valorização cambial e política monetária ativa, levando o complexo couro-calçados a realizar um forte ajuste produtivo.
Esse ajuste significou fechamento de empresas, redução de postos de trabalho, transferências de plantas (em busca dos benefícios fiscais oferecidos por alguns Estados nordestinos), e incorporação de novos materiais químicos aos processos de produção de calçados. Os curtumes, por sua vez, procuraram introduzir melhorias em produtos e processos, visando a ampliar suas vendas no mercado externo.
Segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2002, do IBGE, o Estado de São Paulo responde por 26,7% do pessoal ocupado (PO) e por 26,9% do valor da transformação industrial (VTI) desse setor no Brasil, participação inferior à do total da indústria estadual, de cerca de 40% do PO e 50% do VTI da indústria brasileira.
Considerando-se a estrutura industrial paulista, o complexo couro-calçados respondia por apenas 1,1% do VTI e 4,5% do PO, conforme a PIA 2002. Desagregando-se esses valores, verifica-se que o segmento mais importante do ponto de vista do VTI e do emprego é o de fabricação de calçados, seguido por curtimento e outras preparações de couro.
No processo de fabricação de calçados há grande variedade de empresas em termos de porte, especialização e participação no mercado, resultando numa grande heterogeneidade produtiva. Essa variação decorre do padrão de concorrência do setor, com grande segmentação, que permite o surgimento de empresas de diversos portes que atuam em mercados específicos.
Ademais, a fragmentação do processo produtivo estimula o surgimento de empresas especializadas, que assumem o papel de fornecedoras de peças, componentes e serviços específicos aos produtores de calçados.
Do ponto de vista da distribuição regional, essa indústria concentra-se nas Regiões de Franca e Araçatuba e na Região Metropolitana de São Paulo, que respondem em conjunto por 81% do valor adicionado e 83% do PO, segundo a Pesquisa da Atividade Econômica Paulista (Paep) 2001, realizada pela Fundação Seade.
A Região de Franca é especializada na produção de calçados masculinos de couro, enquanto em Birigui, na RA de Araçatuba, prevalece a fabricação de calçados infantis. Outro pólo importante da indústria de calçados é o município de Jaú, especializado em calçados femininos.
A estruturação desses núcleos de produção de bens específicos cria uma sinergia entre os agentes participantes da cadeia produtiva, capaz de gerar ganhos de produtividade para toda a rede e não apenas para algumas empresas.
Com relação ao desempenho no comércio internacional, a indústria de couro e calçados apresenta resultado historicamente superavitário. Considerando o ano de 2003, a indústria paulista de couro e calçados exportou US$ 488 milhões, o que corresponde a 2,1% das vendas externas do Estado.
Ressalte-se o baixo grau de importação de produtos por essa indústria, plenamente atendida pela produção interna. A importação de calçados está restrita às grifes internacionais da moda. O segmento de curtimento e outras preparações de couro respondeu por cerca de 60% do valor exportado.
Essas exportações são essencialmente de wet blue, uma vez que a qualidade do couro brasileiro ainda deixa a desejar. A baixa qualidade do produto nacional advém da forma como o gado é criado, do transporte dos animais entre a fazenda e o abatedouro, da má conservação do couro fresco e da esfola malfeita.
Em razão desses fatores, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), apenas 8,6% do couro manufaturado pelos curtumes nacionais são de qualidade superior, enquanto nos Estados Unidos esse aproveitamento é de 85%.
A indústria paulista de couro e calçados, embora tenha uma história de sucesso no comércio internacional, ainda produz essencialmente para o mercado interno.
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